8# ARTES E ESPETCULOS 29.1.14

     8#1 CINEMA  NA BOCA DO POVO
     8#2 CINEMA  NA ZONA DO CREPSCULO
     8#3 MEMRIA  A BATUTA DISCRETA
     8#4 LIVROS  A LEVEZA DO MAL
     8#5 VEJA RECOMENDA
     8#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#7 J.R. GUZZO  NO FUI EU

8#1 CINEMA  NA BOCA DO POVO
As comdias viraram a fora que impulsiona o cinema nacional. So filmes muito diferentes de seus congneres do passado  e que consagram uma nova elite do humor.
BRUNO MEIER E MARCELO MARTHE

     Ter ou no ter Jerry Lewis na sequncia da comdia At que a Sorte Nos Separe  o filme nacional mais visto em 2012, com 3,5 milhes de espectadores  foi motivo de longas discusses entre os produtores. Mesmo com um oramento de 6 milhes de reais, o cache do astro veterano era considerado alto demais para uma simples ponta. Mrcio Fraccaroli, presidente da Paris Filmes, coprodutora e distribuidora do longa nas salas de exibio, resolveu a questo com uma ligao para o protagonista Leandro Hassum: "Voc realmente acha importante t-lo no elenco?". Hassum confirmou sem pestanejar: "Mais do que um dolo, Jerry servir como chancela da fora de uma comdia brasileira". O pblico, porm, dispensou a chancela do lendrio comediante americano. Uma pesquisa qualitativa para avaliar a aceitao de At que a Sorte Nos Separe 2, realizada pouco antes de sua estreia, na virada do ano, revelou que aquilo que era motivo de orgulho para a equipe passava batido aos olhos dos espectadores. "A maior parte do nosso pblico, que est na faixa dos 15 aos 25 anos, no reconheceu Jerry Lewis. Ou nem sequer tinha ouvido falar dele", diz o produtor Fabiano Gullane. Participantes da pesquisa confundiram Lewis com Mel Brooks, David Letterman  ou at com Charles Chaplin, morto em 1977. Mas esse detalhe no afetou em nada o desempenho do filme. At que a Sorte Nos Separe 2 foi lanado em 763 salas, recorde absoluto no cinema nacional desde a chamada retomada, em 1995. H duas semanas, durante entrevista a VEJA, Hassum soube por meio de um assessor que naquela tarde sua fita havia batido a marca de 3 milhes de espectadores em trs semanas. Moral da histria: ningum precisa da forcinha de um astro americano se tem  mo um nome de peso como Leandro Hassum. E que peso pesado: aos 40 anos, o humorista ostenta seus 135 quilos com o orgulho dos vencedores. 
     O sucesso de At que a Sorte Nos Separe 2  adaptao livre do best-seller da autoajuda financeira Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, de Gustavo Cerbasi  no  um caso isolado. Em 2013, as comdias produzidas aqui foram responsveis por levar 22 milhes de brasileiros aos cinemas (veja o quadro na pg. 97).  frente delas, alm de Hassum, esto outros trs protagonistas de arrasa-quarteires dos ltimos quatro anos que se desdobraram (ou devero se desdobrar) em franquias. No papel de uma abilolada dona de sex shops, Ingrid Guimares fez dos dois filmes da srie De Pernas pro Ar o fenmeno mais impressionante dessa leva, somando quase 8,5 milhes de espectadores. Tambm engrossam o filo os humoristas Fbio Porchat, da comdia de desencontros amorosos Meu Passado Me Condena, e Paulo Gustavo, de Minha Me  uma Pea. Ambos com sequncias planejadas. No se engane, leitor: o riso virou negcio serissimo. 
     O pblico que consome as atuais comdias  variado tanto na idade quanto na condio social. De Pernas pr Ar atrai desde crianas at senhoras de 70 anos. A alavanca para atingir tamanha audincia, porm, se d pelos cinemas de periferia. Desde 2009, multiplicaram-se as salas de exibio em shopping centers fora das reas centrais das cidades  seguindo a expanso dos prprios shoppings no Brasil (em 2000, eram 280; atualmente, so 495). Em um levantamento recente feito pela distribuidora Paris Filmes, das vinte salas com maior pblico de At que a Sorte Nos Separe 2, treze esto longe dos bairros abastados. A adeso das classes C e D faz com que os roteiristas e produtores desenvolvam filmes mais populares e de fcil acesso. "No fazemos comdia para alemes ou suos. Se tiver muita sutileza ou uma tirada sobre Nietzsche, o pblico no vai entender", diz Caio Gullane, tambm produtor de At que a Sorte Nos Separe 2. 
     O cinema nacional levou quase duas dcadas para promover a reinveno de um gnero que tempos atrs atestou sua fora nas chanchadas, nos sucessos de Mazzaropi, Oscarito e Grande Otelo  at degringolar na pornochanchada dos anos 1970. A comparao com a velha chanchada ou sua variante ertica, alis, causa irritao nos criadores das comdias atuais. "A preocupao com a histria era zero nesses filmes. Tudo era pretexto para exibir vedetes de maio ou cenas de sexo", diz Paulo Cursino, roteirista de At que a Sorte Nos Separe e De Pernas pro Ar. A pornochanchada, em especial, afastou a classe mdia das comdias: nascia ali a noo de que filme nacional era sempre uma porcaria disfarada com o desfile de mulheres peladas. M fama em grande parte merecida, por sinal. 
     S em 2006, com o surgimento do sucesso Se Eu Fosse Voc, de Daniel Filho, a comdia comeou a reconquistar seu lugar. O filme em que Glria Pires e Tony Ramos so um casal que troca de corpo estabeleceu os pilares da nova comdia. As produes atuais no tm medo de abraar os valores e anseios da classe mdia. " um cinema que tem a cara da Barra da Tijuca, no da Zona Sul do Rio", diz Cursino. Isso inclui no apenas a ambientao e a realidade social dos personagens, mas o apuro tcnico: busca-se um padro de fotografia, edio e trilha sonora de filme comercial americano. " coisa de profissionais. Ningum ali est brincando", analisa Paulo Srgio Almeida, da consultoria Filme B. H uma tentativa de espelhar at mesmo os roteiros tursticos que inebriam a classe mdia: boa parte da sequncia de De Pernas pro Ar se passa em Nova York; a de At que a Sorte Nos Separe foi filmada em Las Vegas. "Enquanto a maioria dos filmes nacionais insiste em chamar os cidados de classe mdia de babacas, ns os tratamos com carinho", diz Cursino. 
     O que diferencia de forma cabal essas comdias das congneres de antigamente  a existncia de alguma sustncia no roteiro.  evidente que h concesses (muitas) ao humor de um programa como o Zorra Total  leia-se pastelo tosco e tiradas infames. Mas to importante quanto as piadas  a historinha bem amarrada, ainda que simples, capaz de encerrar uma lio moral (veja os quadros ao longo da reportagem). Por meio disso, refora-se o valor de instituies como a famlia e o casamento. Trata-se daquilo que os americanos classificam de feel good movie: um filme feito para fazer o espectador sentir-se leve. "As pessoas no querem sair do cinema pensando", analisa Fraccaroli, da Paris Filmes. 
     H certa cincia em produzir comdias assim. "So filmes-delivery: amem ou odeiem, mas eles entregam o que prometem", diz Mariza Leo, produtora de De Pernas pro Ar e Meu Passado Me Condena. Tanto que as pesquisas qualitativas, nos moldes das usadas pela Globo para avaliar novelas, so uma arma obrigatria. "Um ttulo ou trailer fora do lugar pode comprometer o desempenho nas bilheterias", diz o francs Eric Belhassen, que conduz boa parte dessas enquetes. De Pernas pro Ar se chamaria originalmente "Sex Delcia". Detectou-se, porm, que o nome causava rejeio entre as mulheres, por parecer filme de apelo sexual para marmanjos. 
     Mas o item fundamental  mesmo a presena de um humorista carismtico. "Vivemos a era dos protagonistas de comdia", diz Fraccaroli. Os quatro campees do gnero, do rolio Hassum ao estridente Paulo Gustavo, tiveram seu cacife testado em peas teatrais antes de estrelar filmes (no caso de Porchat, houve ainda a exposio na internet com a trupe Porta dos Fundos). Curiosamente, apesar de Ingrid e Hassum terem protagonizado atraes na Globo, eles alcanaram um status maior no cinema do que na televiso. Ingrid passou uma dcada fazendo participaes em programas de Chico Anysio e papis no extinto Voc Decide ou de empregada em novela at explodir no teatro. "Meu humor  de identificao. As mulheres me param para desabafar sobre seus problemas", diz ela. 
     O trunfo de Hassum  seu fsico. A galera vai ao delrio quando ele expe sua pana pantagrulica. Hassum demorou dez anos fazendo bicos como professor de ingls e teatro at conseguir um quadro fixo no Zorra Total (no mesmo perodo em que Porchat era roteirista do programa)  e se juntar ao colega Marcius Melhem na bem-sucedida pea Ns na Fita. "Eu achava que minha carreira nunca ia acontecer", diz. Alados ao posto de novos palhaos da nao, Ingrid, Hassum e Porchat agora pensam alto. Pretendem investir dinheiro do prprio bolso nos prximos filmes. Afinal, ser estrela de comdia d dinheiro: o cach varia de 100.000 a 200.000 reais, fora a participao de 2% a 6% na receita lquida do filme. No caso de uma estrela do porte de Hassum, chega a 10%. Ele est vivendo a fase das vacas gordas. 

S ALEGRIA
As comdias movimentaram o cinema brasileiro em 2013. quando foram batidos os recordes de renda e de pblico desde a chamada retomada da produo nacional, em 1995.
78% do faturamento e da audincia dos filmes brasileiros no ano passado se deveram ao gnero.
Foram 22 milhes de espectadores e 233 milhes de reais de bilheteria.
Fonte: Filme B

AT QUE A SORTE NOS SEPARE 1 e 2 (2012 e 2013)
* Protagonista: Leandro Hassum
* Quantas pessoas viram; 3,5 milhes (1) e 3,5 milhes (2)
* Bilheteria: 35 milhes de reais (1) e 39,5 milhes de reais (2)
* A histria: ao torrar as fortunas que ganhou na Mega-Sena e numa herana, um pai de classe mdia compromete a paz familiar.
* O chamariz: a disposio de Hassum em expor seu corpo ao ridculo. Uma pesquisa mostra que o pblico delira sempre que o comediante exibe sua pana.
* A plula moral: dinheiro  importante, mas no compra a felicidade.

VAI QUE D CERTO (2013)
* Protagonistas; Fbio Porchat, Gregrio Duvivier, Bruno Mazzeo e Lcio Mauro Filho
* Quantas pessoas viram: 2,7 milhes
* Bilheteria: 29 milhes de reais
* A histria: um grupo de amigos ps-rapados e desmiolados decide assaltar um carro-forte da transportadora de valores em que um deles trabalha
* O chamariz: a reunio de quatro comediantes jovens e bem conhecidos em um mesmo filme
* A plula moral: a unio entre amigos faz a fora - mas a amizade  sua prpria recompensa 

DE PERNAS PRO AR 1 e 2 (2010 e 2012)
* Protagonista: Ingrid Guimares
* Quantas pessoas viram: 3,5 milhes (1) e 4,8 milhes (2)
* Bilheteria: 31,5 milhes de reais (1) e 50 milhes de reais (2)
* A histria: uma mulher se v dividida entre o casamento e a atividade de empresria de sex shops
* O chamariz: o romantismo temperado com alguma pimenta fetichista
* A plula moral: embora tenha direito ao trabalho e ao prazer, a mulher moderna no ser feliz se der as costas  sua vida pessoal

MINHA ME  UMA PECA: O FILME
* Protagonista: Paulo Gustavo
* Quantas pessoas viram: 4,6 milhes
* Bilheteria: 49,5 milhes de reais
* A histria: uma dona de casa divorciada lida com os conflitos de seu cl disfuncional, que inclui um filho gay e uma filha obesa
* O chamariz: o jeitinho muito  vontade com que Paulo Gustavo se traveste na feiosa, histrica e desbocada Dona Hermnia
* A plula moral: apesar de todas as dificuldades e diferenas, a famlia ser sempre o maior porto seguro

MEU PASSADO ME CONDENA (2013)
* Protagonista: Fbio Porchat
* Quantas pessoas viram: 3,1 milhes
* Bilheteria: 34 milhes de reais
* A histria: recm-casados passam a lua de mel a bordo de um cruzeiro e reencontram seus antigos amores
* O chamariz: o humor rpido de Porchat, que repete no filme o mesmo tom e trejeitos de que ele se vale nos vdeos do Porta dos Fundos e em seus shows de comdia
* A plula moral: nem mesmo os percalos da convivncia podem separar um homem e uma mulher que foram feitos um para o outro


8#2 CINEMA  NA ZONA DO CREPSCULO
Quando Eu Era Vivo explora a linha entre sanidade e loucura

     Desde que Snior (Antonio Fagundes) abre a porta para Jnior (Marat Descartes) e o resgata de uma noite deserta, est claro que pai e filho so como que estranhos. Jnior, calado, passivo e descolorido, aceita sem jeito a pousada no sof da sala: o quarto que foi dele e do irmo est ocupado por uma jovem inquilina (Sandy Leah). E Snior, ativo e falador, no  o pai de que Jnior se lembra. O que realmente o desconcerta, porm,  que este no  mais o apartamento de outrora: h luz e aparelhos de ginstica por toda parte, e os vestgios de sua me foram aniquilados. Mais tarde, Jnior os descobrir num quartinho escuro. E, assim, restituindo ao seu lugar de origem tapearias, quadros e bichos de porcelana, ele comea a adentrar o labirinto de um passado cheio de segredos, e a se perder nele. Chega o ponto, em Quando Eu Era Vivo (Brasil, 2013), que estreia nesta sexta-feira, em que nem o divrcio nem a perda do emprego (eventos ocorridos em circunstncias obscuras) explicaro o comportamento cada vez mais errtico de Jnior. Restam, como alternativas, o desequilbrio mental ou a possesso. Ou quem sabe as duas coisas sejam uma s: uma estranha forma de autossugesto que a me (Helena Albergaria), vista em sonhos ou na imagem granulada de um videocassete, inculcou nos filhos. 
     Adaptado do livro A Arte de Produzir Efeito sem Causa, de Loureno Mutarelli, este segundo longa do diretor Marco Dutra leva adiante a experimentao do seu trabalho de estreia, Trabalhar Cansa (que dirigira em parceria com Juliana Rojas): trata de aflies palpveis  aqui, a relao atribulada entre um pai e seu filho  em uma zona crepuscular entre o real e o imaginrio, a sanidade e a loucura. Combina, assim, terror psicolgico e/ou sobrenatural aos ambientes da classe mdia remediada, carrega o ordinrio de premonio e sublinha o mal-estar com rudos que insistem ou se avolumam. Por vezes, Quando Eu Era Vivo provoca um medo genuno, daqueles que se percebem pelo suor na palma das mos. Mas repete-se o dilema de Trabalhar Cansa, o do alcance que um filme to austeramente minimalista como este pode ter. O que no falta a Dutra, porm,  originalidade  e destemor. 
ISABELA BOSCOV


8#3 MEMRIA  A BATUTA DISCRETA
Aplausos me  deixam embaraado. Sou um maestro, no um showman. Cludio Abbado (1933-2014)

     O regente italiano Cludio Abbado, morto na segunda-feira 20, aos 80 anos, em decorrncia de um cncer no estmago, era homem de poucas palavras. No tinha o pendor dramtico de outros maestros celebrados. Alguns msicos da Filarmnica de Berlim, que ele comandou entre 1989 e 2002, consideravam seus ensaios tediosos. "Ele no falava de msica. Preferia faz-la", disse certa vez o maestro ingls Daniel Harding. Seu silncio, porm, era s o preldio de sons sublimes. Com uma regncia precisa, de gestual econmico, Abbado deixou verses estupendas de compositores como Mahler, Beethoven e Mozart. Nascido em Milo, ele iniciou seus estudos musicais aos 8 anos. Aprendeu violino e piano, mas optou pela regncia depois de se impressionar com uma performance dos Noturnos de Debussy. Sua estreia no pdio se deu em 1958, ao conduzir O Amor das Trs Laranjas, de Prokofiev, em Trieste. Pouco tempo depois, ele cairia nas graas do americano Leonard Bernstein, que o contratou para ser seu assistente na Filarmnica de Nova York, e do austraco Herbert von Karajan, que o chamou para reger a Segunda Sinfonia de Mahler, no Festival de Salzburgo. Abbado colecionou cargos como diretor musical do Teatro alla Scala, de Milo, e da pera Estatal de Viena. Em 1989, estava com um p na Filarmnica de Nova York quando foi escolhido como sucessor de Karajan, morto naquele ano, na Filarmnica de Berlim. "Me chamem de Cludio", disse aos msicos logo que assumiu o cargo, em franco contraste com o estilo tirnico do antecessor. Abbado suavizou a densa parede sonora que caracterizava a orquestra e revigorou seu repertrio. Mas nunca alcanou o sucesso de vendas dos CDs de Karajan. Esse fato, somado aos seus problemas de relacionamento com a orquestra, levou-o a no renovar o contrato quando este se encerrou, em 2002. Cludio Abbado e os berliners apresentaram-se no Brasil em 2000, o mesmo ano em que ele foi diagnosticado com cncer. Apesar de combalido, dedicou-se  msica at o fim,  frente da Orquestra Jovem Gustav Mahler e da Orquestra do Festival de Lucerna. E o resto  silncio. 
SRGIO MARTINS


8#4 LIVROS  A LEVEZA DO MAL
Um sociopata que ganha na loteria e descobre o peso da riqueza  o anti-heri de Lionel Asbo, de Martin Amis.

     Antes de ganhar milhes de libras na loteria com um bilhete roubado, Lionel Asbo achava que no havia refeio melhor que um lanche da rede KFC, especializada em frango frito. Na sua condio de novo-rico, ele se surpreende, em um restaurante caro, com o peso dos talheres. "O mundo dos ricos era pesado, tinha razes no cho. Tinha o peso do passado a segur-lo", conclui. Essa nota filosofante ser rara no personagem, um criminoso bronco e violento. Mas  uma sntese perfeita do universo descrito pelo escritor ingls Martin Amis em Lionel Asbo (traduo de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 360 pginas; 49 reais ou 34,50 na verso eletrnica). O romance retrata a dissoluo social, cultural e moral de um distrito pobre de Londres, o fictcio Diston. A tragdia de seus habitantes  a leveza de uma vida sem razes, sem conexo com o passado, e na qual todos os vnculos humanos  so corrodos por necessidades comezinhas e desejos mesquinhos. 
     De batismo, Lionel tinha o sobrenome Pepperdine. Asbo"  a sigla de "Anti-Social Behaviour Order", espcie de mandado judicial para restringir a ao de infratores com comportamento antissocial. Lionel , em suma, um sociopata em um mundo de sociopatas. Amis, desde sempre um cronista desencantado da sociedade inglesa, muitas vezes pesa a mo. Ainda que temperadas pelo humor, suas descries da sordidez de Diston quase fazem com que Lionel Asbo parea um romance naturalista do sculo XIX. Mas aqui no existe determinismo social: Desmond Pepperdine, sobrinho de Lionel, parece capaz de vencer as constries de seu meio. Verso meio decada dos pobres rfos de Charles Dickens, Des  dotado de qualidades inexistentes no restante de sua famlia  inteligncia e gentileza, entre elas. Sua me solteira morreu quando ele era criana, e   Lionel, de seu jeito bruto e torto, at tentou proteg-lo. S que o ambiente de degenerescncia moral de Diston favorece o incesto: aos 15 anos, Des  seduzido pela av, Grace, de 39. Esta , alis, a primeira cena do livro  e, at o final da narrativa. Des viver em pnico com a possibilidade de que Lionel, sempre obcecado em coibir qualquer atividade sexual da me, saiba do caso. Outro garoto que se engraou com Grace teve um final terrvel. 
 violncia do bairro pobre, Amis contrape a idiotia do crculo de subcelebridades que Lionel Asbo passa a frequentar depois de enriquecer. Garoto fraco, s vezes covarde, Des , ainda assim, um raio de luz nesta narrativa sombria. Ter uma filha com Dawn, jovem que conhece na universidade. Essa precria unidade familiar, sempre assediada pela ameaa latente de Lionel Asbo, confere ao romance um toque de esperana quase ingnua. A pequena famlia de Des  o que resta de pureza em um mundo sujo e feio. Submetido a um bem arquitetado crescendo de tenso no captulo final, o leitor torcer desesperadamente por esses pobres heris. 
JERNIMO TEIXEIRA


8#5 VEJA RECOMENDA
EXPOSIES
DAVID BOWIE (DA SEXTA-FEIRA 31 A 20 DE ABRIL NO MUSEU DA IMAGEM E DO SOM, EM SO PAULO)
 Exibida anteriormente na Inglaterra e no Canad, esta  uma das mostras mais ambiciosas j dedicadas a um astro da msica pop. Traz cerca de 300 objetos da coleo pessoal de David Bowie. Os curadores Victoria Broakes e Geoffrey Marsh escolheram preciosidades, como o terno azul desenhado por Freddie Burretti e utilizado no clipe de Life on Mars, e um macaco de vinil criado por Kansai Yamamoto e usado na turn de 1973. Entre as fotos raras, Bowie aparece com apenas 16 anos, como membro da banda The Kon-rads. Mais do que uma simples exibio de objetos, David Bowie, a mostra, explica o processo criativo do cantor e compositor ingls  h muitos manuscritos de textos e letras de canes. A exposio do MIS no ter a reconstituio da "swinging London" dos anos 1960 que se viu no Victoria and Albert Museum, em Londres, no ano passado. Mas vai trazer um mimo ao gosto brasileiro: um karaok Bowie, para que os visitantes testem a voz em algumas canes do dolo.

VISES NA COLEO LUDWIG (EM CARTAZ NO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL, EM SO PAULO, AT 7 DE ABRIL)
 O alemo Peter Ludwig (1925-1996) talvez tenha sido o colecionador mais compulsivo da histria. Filho de um fabricante de cimento, ele iniciou suas aquisies depois de se casar com a herdeira de uma poderosa marca de chocolates igualmente apaixonada por arte, Irene Monheim. O gosto do casal era ecltico: ia da arte pr-colombiana s relquias medievais, desaguando nas tendncias contemporneas. Figura controversa, Ludwig teve sua reputao arranhada, nos anos 1980, ao encomendar bustos dele e da mulher a Arno Breker, que fora o escultor favorito de Hitler. Mas sua coleo, hoje espalhada por mais de trinta museus, sobretudo na Alemanha,  admirvel. A mostra brasileira apresenta oitenta obras, a maioria delas do acervo do Museu Russo de So Petersburgo. Trata-se de um painel da produo do fim da dcada de 40 at a de 90, ao qual se soma um punhado de videoinstalaes incorporadas ao acervo aps a morte de Ludwig. H irrelevncias, como uma tela de Picasso de segunda categoria (Cabeas Grandes, de 1969). Mas a seo de arte pop traz as melhores fases de Jasper Johns, Roy Lichtenstein e Robert Rauschenberg. Depois de So Paulo, a mostra segue para os CCBBs do Rio e de Belo Horizonte.

LIVRO
TUDO O QUE SOU, DE ANNA FUNDER (TRADUO DE LUIZ A. ARAJO E SARA GRNHAGEN; COMPANHIA DAS LETRAS; 424 RGINAS; 57 REAIS)
 A advogada, documentarista e escritora Anna Funder nasceu na Austrlia, em 1966  mas os temas a que se dedica em seus livros parecem sugerir um autor europeu da gerao que viveu pelo menos a infncia durante a II Guerra Mundial. Anna investiga o impacto que o totalitarismo tem sobre a vida ntima. Em Stasilndia, obra de no fico lanada no Brasil tambm pela Companhia das Letras, a autora narra a experincia de vrios cidados da antiga Alemanha Oriental que se defrontaram com a vigilncia da polcia secreta comunista, a temida Stasi. Tudo o que Sou  uma obra de fico, um romance, mas seu enredo e personagens so firmemente baseados em pesquisa histrica. Conta a saga de um grupo de militantes de esquerda que, logo depois da ascenso de Hitler ao poder, em 1933, buscam exlio na Inglaterra  e de l tentam conspirar contra o regime nazista. Entre eles, aparece o dramaturgo Ernst Toller, que se suicidou nos Estados Unidos, em 1939. 

DISCO
ALTO GRANDE, PAULO FREIRE (VAI OUVINDO)
 Guitarrista de formao jazzstica, Paulo Freire se encantou tanto com o mundo sertanejo descrito por Guimares Rosa em Grande Serto: Veredas que se mudou para a regio do Urucuia, em Minas Gerais, a fim de trabalhar na roa e aprender a tocar viola. O encontro da cultura urbana com a simplicidade rstica do campo faz de Freire um msico especial. Em Alto Grande, seu mais recente lanamento, as histrias sertanejas do violeiro (um contador de casos nato) so entrecortadas por ricas passagens instrumentais.  o que se ouve no jazz pop Ferveu!, sobre o romance improvvel de uma patricinha e um tipo doido, e em  Meu, cano cheia de mudanas no andamento. Pintando o Chet na Viola homenageia o cantor e trompetista americano Chet Baker. O virtuosismo de Paulo Freire revela-se na tima faixa-ttulo, em que a cantora Ana Salvagni interpreta a mulher de um vaqueiro cansada das viagens do marido  e a viola torna-se um personagem da narrativa, fazendo at sons que imitam uma manada de bois. A MPB mais tradicional tambm tem vez, no samba Bom Dia, parceria com Swami Jr. (que divide os vocais com Freire).

CINEMA
FRUITVALE STATION - A LTIMA PARADA (FRUITVALE STATION, ESTADOS UNIDOS, 2013. J EM CARTAZ)
 Vencedor do prmio do pblico e do jri no Festival de Sundance de 2013, o filme do estreante Ryan Coogler discute de maneira original o assassinato do jovem negro Oscar Grant III pela polcia de Oakland, na Califrnia, na madrugada de 1 de janeiro de 2009: recriando as ltimas 24 horas de sua vida. Dessa forma, Coogler no apenas mostra a tenso urbana e racial que levou  reao escandalosa dos agentes de segurana, como faz um arrazoado cortante do que se perde junto com uma vida que em tudo mais estava destinada s beiradas e ao anonimato. Aos 22 anos, Oscar, interpretado pelo excelente Michael B. Jordan, tinha j uma passagem pela priso e uma imensa dificuldade em se manter distante da marginalidade. Mas tinha tambm uma filha, uma namorada com quem pretendia se casar (apesar de s vezes tra-la), uma me que adorava (e como no, sendo ela Octavia Spencer?) e uma vontade sincera, ainda que sem foco ou rumo, de pr a vida nos trilhos. Como roteirista, Coogler ocasionalmente peca pelo sentimentalismo; como diretor, e em especial diretor de atores, revela fluidez e talento genunos. 


8#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- A Redeno de Gabriel. Sylvain Reynard. ARQUEIRO
3- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
4- A Menina que Roubava Livros. Markus Zusak. INTRNSECA
5- O Teorema de Katherine. John Green INTRNSECA 
6- Fim. Fernanda Torres. COMPANHIA DAS LETRAS 
7- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES 
8- Inferno. Dan Brown. ARQUEIRO 
9- O Lado Bom da Vida. Matthew Quick. INTRNSECA 
10- Extraordinrio. R.J. Palacio. INTRNSECA

NO FICO
1- Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA
2- Assassinato de Reputaes. Romeu Tuma Jr. TOPBOOKS
3- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Lovato. BEST SELLER
4- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO 
5- Operao Banqueiro: as Provas Secretas do Caso Satiagraha. Rubens Valente. GERAO EDITORIAL
6- Eu Sou Malala. Malala  Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS 
7- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
8- Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limite. Igncio de Loyola Brando. GENTE 
9- Para Sempre. Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO
10- Kardec  A Biografia. Marcel Souto Maior. RECORD 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
3- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA 
4- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
5- O Encontro Inesperado. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
6- O que Realmente Importa? Anderson Cavalcante. SEXTANTE 
7- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
8- O Mtodo Dukan - Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
9- Estrada para os Sonhos. Marcelo Leite. GENTE
10- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE


8#7 J.R. GUZZO  NO FUI EU
     Nada como o fracasso para trazer  luz do sol alguns dos defeitos mais desagradveis que o ser humano esconde nos subrbios distantes da sua alma. Diz-me como lidas com teus fracassos, e eu te direi quem s  eis a o resumo da pera, numa adaptao do velho provrbio sobre as ms companhias. De fato,  quando as coisas complicam que fica mais fcil dividir o bom do mau carter. Personalidades construdas com material de primeira qualidade sabem que o fracasso, em si, no  fatal;  apenas o resultado dos erros de julgamento de todos os dias, e, portanto, deve ser enfrentado com a disposio de fazer mudanas, adquirir mais conhecimento, ouvir mais gente e assim por diante. Mas sabem, tambm, que o fracasso pode ser um pecado mortal quando o seu autor no admite que fracassou, ou nega que tenha havido realmente um fracasso, ou, pior que tudo, pe a culpa do fracasso nos outros. Seu mandamento principal  uma frase muito ouvida nas salas de aula infantis: "No fui eu". So pessoas fceis de encontrar. Um dos seus habitais  o governo. 
     A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, no perde nenhuma oportunidade de dizer "no fui eu". O ano de 2013, para ir direto ao assunto, foi uma droga. O PIB cresceu abaixo de 2,5%  quase metade do que o governo tinha prometido no comeo do ano. O saldo da balana comercial teve o pior resultado desde 2000, com uma queda de quase 90% em relao a 2012. Num tipo de molecagem contbil cada vez mais comum, registrou-se como "exportao" a venda de equipamento que nunca saiu do territrio nacional. Em dlar, mesmo, no entrou um centavo no Brasil. Mas no papelrio oficial consta o ingresso de quase 8 bilhes, sem os quais, alis, teria havido dficit na balana de 2013. Outros truques parecidos fazem do Brasil um aluno promissor da Escola de Contabilidade Cristina Kirchner. 
     Pela primeira vez em dez anos, caram as vendas de carros. O contribuinte pagou 1,7 trilho de reais em impostos  a maior soma de todos os tempos. Os brasileiros gastaram cerca de 25 bilhes de dlares no exterior, quatro vezes mais do que os estrangeiros gastaram aqui  e qual a surpresa, quando ficou mais barato comprar um enxoval em Miami do que em Botucatu? A maior empresa do Brasil, a Petrobras, teve um desempenho calamitoso: em apenas um ano, de 2012 a 2013, foram destrudos 40 bilhes de reais do seu valor de mercado. O Brasil (que Lula, em 2006, proclamou "autnomo" em petrleo, e j pronto para "entrar na Opep") importou 40 bilhes de dlares em petrleo e derivados em 2013. 
     A presidente, cada vez mais, d a impresso de estar passeando num outro planeta. Segundo Dilma, 2013 at que foi um ano bem bonzinho, e o que pode ter acontecido de ruim no foi culpa dela, e sim da "guerra psicolgica" que teria sofrido. Foram condenados, tambm, os "nervosinhos"  gente que, segundo o ministro Guido Mantega, fez clculos pessimistas para as contas pblicas de 2013. Veio, ento, com uns miserveis decimais acima das tais previses  que, de qualquer forma, ficaram muito abaixo da meta prometida. Os juros foram a 10,5% ao ano, a inflao voltou a roncar e o Brasil pode perder o seu sagrado "grau de investimento" em 2014. 
     A estratgia econmica resume-se hoje a repetir a ladainha de sempre sobre o desemprego de "apenas 4,6%", que na verdade parece ser de 7%, e o aumento de renda que levou "milhes de brasileiros" a sair da misria e subir  "classe mdia". Chega a ser piada de humor negro misturar dados de desemprego no Brasil e em pases do Primeiro Mundo, para vender a iluso de que "estamos melhor que eles". O que adianta isso, quando o abismo entre nosso bem-estar e o do mundo desenvolvido continua igual? Da "subida social" dos brasileiros, ento,  melhor nem falar. Falar o qu, quando o governo decidiu que faz parte da classe mdia todo cidado que ganha de 291 reais por ms a 1019? A presidente quer que acreditemos no seguinte disparate: a pessoa entra na classe mdia se ganhar menos da metade do salrio mnimo por ms; se ganhar 1020 reais, j fica rica. 
     A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na prpria cabea a ideia de que um fracasso  apenas um fato, e no um julgamento moral. Ningum se torna um ser humano melhor porque acerta, ou pior porque erra. Mas no Brasil o que vale no  enfrentar o fracasso lutando pelo sucesso. Melancolicamente, o que funciona  negar a derrota e chamar a marquetagem para dar um jeito nas coisas. O resultado so anos como 2013. 


